Ozempic no SUS em Análise: Saiba como medicamentos contra obesidade podem se tornar acessíveis

Ministério da Saúde avalia incluir Saxenda, Wegovy e Ozempic no SUS para combate à obesidade, doença que afeta milhões de brasileiros e gera altos custos ao sistema de saúde. Entenda o debate.

Publicado em 22/03/2025 por Rodrigo Duarte.

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O Ministério da Saúde está analisando a possibilidade de incorporar ao SUS medicamentos como Saxenda, Wegovy e Ozempic para o tratamento da obesidade. A medida representa um importante avanço nas políticas públicas de saúde, considerando que a obesidade afeta cerca de 22% da população adulta brasileira, segundo dados recentes da Pesquisa Nacional de Saúde. Esses medicamentos, que têm demonstrado resultados significativos no controle do peso, poderiam beneficiar milhões de brasileiros que lutam contra essa condição crônica.

Atualmente, esses medicamentos são disponíveis apenas na rede privada, com preços que podem ultrapassar R$ 2.000 por mês, tornando-os inacessíveis para grande parte da população. A incorporação ao Sistema Único de Saúde representaria uma democratização do acesso a tratamentos mais eficazes contra a obesidade, condição que está associada a diversas comorbidades como diabetes tipo 2, hipertensão arterial e problemas cardiovasculares.

Os especialistas envolvidos na análise estão avaliando não apenas a eficácia clínica desses medicamentos, mas também o impacto orçamentário de sua inclusão no sistema público. Um estudo de viabilidade econômica está sendo conduzido para determinar protocolos de uso, critérios de elegibilidade e estimativas de custo-benefício a longo prazo, considerando que o tratamento da obesidade pode reduzir gastos com complicações de saúde relacionadas à condição.

Ozempic no SUS em Análise: Saiba como medicamentos contra obesidade podem se tornar acessíveis
Créditos: Unsplash

Como Funcionam os Medicamentos em Análise para Tratamento da Obesidade

O Ozempic (semaglutida), Wegovy (semaglutida em dose maior) e Saxenda (liraglutida) pertencem à classe dos análogos de GLP-1, hormônio que regula naturalmente a sensação de saciedade e os níveis de glicose no sangue. Esses medicamentos atuam imitando a ação desse hormônio, o que resulta em redução do apetite, aumento da sensação de saciedade e, consequentemente, perda de peso quando associados a mudanças no estilo de vida.

Estudos clínicos mostram que pacientes usando esses medicamentos podem perder entre 5% e 15% do peso corporal em um período de 6 a 12 meses. O Wegovy, específico para tratamento da obesidade, demonstrou resultados ainda mais expressivos, com perdas médias de até 15% do peso inicial em estudos de longo prazo. Esses resultados superam significativamente os obtidos com intervenções não medicamentosas isoladas, que geralmente resultam em perdas de 2% a 5% do peso.

É importante ressaltar que esses medicamentos não são soluções milagrosas e devem ser utilizados como parte de um programa abrangente de tratamento que inclui dieta balanceada, atividade física regular e acompanhamento médico. Além disso, apresentam efeitos colaterais, principalmente gastrointestinais como náuseas, vômitos e diarreia, que podem limitar seu uso em alguns pacientes.

Impacto Econômico e Social da Inclusão de Novos Tratamentos no SUS

A inclusão de medicamentos como Ozempic no SUS representaria um investimento significativo para o sistema público de saúde. Estimativas preliminares indicam que o custo anual poderia ultrapassar R$ 1 bilhão, dependendo dos critérios de elegibilidade estabelecidos. No entanto, análises de custo-efetividade sugerem que esse investimento poderia ser compensado pela redução de gastos com o tratamento de comorbidades associadas à obesidade.

Especialistas em economia da saúde argumentam que a obesidade custa aos sistemas de saúde globais aproximadamente 2,8% do PIB mundial. No Brasil, estima-se que o custo direto e indireto da obesidade ultrapasse R$ 70 bilhões anualmente, considerando gastos com tratamentos, perda de produtividade e aposentadorias precoces. Nesse contexto, investir em tratamentos eficazes pode representar economia a longo prazo.

O debate sobre a incorporação desses medicamentos também traz à tona questões sobre equidade em saúde. A obesidade afeta desproporcionalmente populações de menor renda, que têm menos acesso a alimentos saudáveis, espaços para atividade física e serviços de saúde preventivos. Disponibilizar tratamentos avançados no SUS poderia contribuir para reduzir essa desigualdade no enfrentamento da doença.

  • Redução potencial nos custos de tratamento de doenças associadas como diabetes e hipertensão
  • Diminuição das taxas de absenteísmo e aposentadoria precoce relacionadas à obesidade
  • Melhoria na qualidade de vida e autonomia dos pacientes
  • Redução da pressão sobre serviços especializados e hospitalizações

Critérios e Protocolos em Discussão para o Acesso aos Medicamentos

Um dos principais desafios para a incorporação desses medicamentos no SUS é estabelecer critérios claros que definam quais pacientes serão elegíveis para o tratamento. Considerando o alto custo e a grande prevalência da obesidade na população, será necessário priorizar casos específicos para garantir a sustentabilidade do programa.

As discussões atuais sugerem que os medicamentos poderiam ser inicialmente disponibilizados para pacientes com obesidade grave (IMC ≥ 35) associada a comorbidades como diabetes tipo 2 de difícil controle, ou pacientes com obesidade mórbida (IMC ≥ 40). Também está em análise a possibilidade de definir critérios que incluam o histórico de tentativas prévias de perda de peso sem sucesso com abordagens convencionais.

Os protocolos em discussão preveem acompanhamento rigoroso dos pacientes, com avaliações periódicas da resposta ao tratamento. Aqueles que não atingirem uma perda mínima de peso (geralmente 5% do peso inicial) após um período determinado poderiam ter o tratamento descontinuado, otimizando o uso dos recursos disponíveis. Essa abordagem baseada em resultados é considerada essencial para a viabilidade do programa a longo prazo.

Experiências Internacionais e Perspectivas para o Brasil

Alguns países já incorporaram esses medicamentos em seus sistemas públicos de saúde, oferecendo exemplos que podem nortear a decisão brasileira. Na Dinamarca, país de origem da fabricante Novo Nordisk, o sistema público cobre o tratamento com Saxenda e Wegovy para pacientes com obesidade grave e comorbidades. No Reino Unido, o National Health Service (NHS) iniciou em 2023 um programa para disponibilizar semaglutida a pacientes selecionados.

Esses exemplos internacionais mostram que a incorporação pode ser viável quando acompanhada de protocolos rígidos e monitoramento constante. As experiências também revelam desafios como a alta demanda inicial, que pode superar a capacidade de atendimento, e a necessidade de garantir a continuidade do tratamento, que geralmente é de longo prazo ou mesmo permanente.

Para o Brasil, especialistas sugerem uma implementação gradual, começando com projetos-piloto em centros especializados no tratamento da obesidade. Essa abordagem permitiria avaliar o impacto real do programa no contexto brasileiro, ajustar protocolos e desenvolver capacidade técnica antes de uma expansão nacional. Adicionalmente, seria fundamental investir em programas complementares de prevenção e educação em saúde.

Desafios e Perspectivas para Implementação da Nova Política

A possível inclusão desses medicamentos no SUS enfrenta desafios significativos além do aspecto financeiro. Um deles é a capacidade da rede pública para absorver a demanda por consultas especializadas, exames e acompanhamento contínuo que os pacientes necessitariam. Seria necessário fortalecer a capacitação dos profissionais de saúde e a infraestrutura do sistema para dar suporte adequado ao programa.

Outro ponto crucial é o equilíbrio entre o tratamento medicamentoso e as ações de promoção da saúde e prevenção da obesidade. Especialistas alertam para o risco de medicalização excessiva de um problema que tem raízes multifatoriais, incluindo determinantes sociais, ambientais e culturais. Uma política efetiva precisa contemplar também medidas estruturais como o incentivo à alimentação saudável, criação de espaços para atividade física e regulação da indústria alimentícia.

A decisão final sobre a incorporação desses medicamentos ao SUS deve ser anunciada após a conclusão dos estudos técnicos em andamento. Independentemente do resultado, o debate já representa um avanço no reconhecimento da obesidade como uma doença crônica que merece atenção prioritária nas políticas públicas de saúde, abrindo caminho para uma abordagem mais integral e efetiva desse importante problema de saúde pública.

ESCRITO POR: Rodrigo Duarte - Jornalista formado pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), com especialização em Marketing Digital.